Indústria Naval - Edição 12 - Março de 2010

Indústria Naval

Os estaleiros estão chegando

Indústria Naval | Edição 12 - Março 2010

Por: Giovanni Sandes

Há alguns poucos anos, as únicas embarcações produzidas no Nordeste e Norte brasileiros limitavam - se a pequenos barcos de pesca e de transporte fluvial de passageiros. Mas, com incentivos do governo federal via Petrobras - com sua gigantesca demanda por plataformas de petróleo, sondas e barcos de apoio - a indústria naval brasileira não só foi ressuscitada como ganhou sólidas perspectivas de descentralização. Se antes o Sudeste e o Sul do país, especialmente o Rio de Janeiro, eram o eixo dessa cadeia produtiva tão densa na geração de riqueza e empregos, o Norte e o Nordeste passaram a ser a nova fronteira da produção naval e de petróleo e gás. Só nos empreendimentos nordestinos, projeta o Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval Offshore (Sinaval), a quantidade de postos de trabalho gerados pelos estaleiros saltará de 10 mil, número do ano passado, para 30 mil em 2015.


O grande símbolo do deslocamento dessa indústria no mapa brasileiro é o Estaleiro Atlântico Sul (EAS), um investimento de R$ 1,6 bilhão já praticamente concluído e em funcionamento desde outubro de 2008. Com ele, são quatro os projetos já consolidados na região: há ainda o Indústria Naval do Ceará (Inace), o paraense Estaleiro Rio Maguari e o amazonense Erin.


Mas o chamado Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef) da Transpetro, subsidiária da Petrobras, promete dar um fôlego ainda maior à retomada dessa indústria. Até 2014, a previsão é de que a frota da marinha mercante brasileira passe de 3,5 milhões de toneladas de porte bruto (TPB) para 6,2 milhões de TPB. Em um horizonte um pouco maior, até 2020, a Petrobras prevê também uma demanda por 45 plataformas de petróleo.


Um exemplo das reviravoltas recentes no número de projetos para o Nordeste é que, em janeiro deste ano, o possível novo mapa dos estaleiros delineava a construção de seis novos empreendimentos nordestinos. Mais um novo, em Pernambuco, foi anunciado em fevereiro, além de um projeto de menor porte na Bahia. Entre projetos confirmados e em espera, o estado pernambucano lidera a carteira de estaleiros, com quatro estaleiros.


Os empreendimentos em Pernambuco, além do Estaleiro Atlântico Sul, são um da Construcap, de US$ 100 milhões, um do consórcio entre a Alusa, a Galvão Engenharia e a asiática Sungdong, uma previsão de US$ 350 milhões em investimentos, e o da Schahin-Tomé, cerca de US$ 170 milhões. Os projetos da Alusa e da Construcap, no entanto, até o fechamento desta edição, ainda aguardavam a definição das possíveis encomendas.


Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico e presidente do Complexo Industrial e Portuário de Suape, Fernando Bezerra Coelho, o estaleiro Schahin - Tomé, com uma geração de 1.700 empregos, é uma mostra do potencial do projeto Suape Global, que pretende induzir o fortalecimento de uma cadeia naval e offshore em Pernambuco.
O Governador do estado, Eduardo Campos, afirmou, durante a entrevista coletiva de anúncio do novo estaleiro, que poderá ser fornecedor de classe mundial dessa indústria de petróleo e gás. O empreendimento Schahin - Tomé atenderá à primeira encomenda de uma plataforma de exploração para a área do pré-sal, a ser utilizada no campo de Guará.
O custo da encomenda é de US$ 1,6 bilhão e a área a ser ocupada por ele é de 40 hectares.


O presidente do Sinaval, Ariovaldo Rocha, vez por outra, lembra do colapso enfrentado por essa poderosa indústria brasileira que renasce agora e que já foi a segunda maior do mundo, na década de 1970. Nos 20 anos seguintes, no entanto, essa indústria brasileira afundou. A situação era bem diferente da atual, com 24 pedidos de financiamento divulgados pelo Fundo da Marinha Mercante - FMM - no Diário Oficial da União, em 22 de janeiro de 2010. E desses, seis projetos, os maiores, são pedidos de financiamentos feitos por estaleiros nordestinos e um do Norte do país.


No FMM, já há R$ 4,6 bilhões em pedidos de financiamentos para o setor. Entre eles está o do Estaleiro Eisa Alagoas, do grupo Sinergy, no Pontal do Coruripe, com aporte de US$ 750 milhões e as impressionantes previsões de 4.500 empregos na primeira etapa de desenvolvimento e um salto para 10.000 postos de trabalho na segunda fase.


A Bahia que, assim como Pernambuco, também desponta como um estado forte na atração de estaleiros, já conta com três projetos que se candidataram a créditos do Fundo da Marinha Mercante. O primeiro é o do Estaleiro da Bahia (Ebasa), projeto de US$ 400 milhões do consórcio OAS, Sertal e Piemonte, no Distrito de São Roque do Paraguaçu, na Baía de Todos os Santos.
Um segundo, o Estaleiro Paraguaçu, da Odebrecht, no município de Maragogipe, é estimado em cerca de US$ 890 milhões. Há ainda um terceiro projeto baiano que solicitou recursos do FMM: uma nova unidade da Corema Indústria e Comércio, no município baiano de Simões Filho, projeto de aproximadamente US$ 60 milhões.


Só nos empreendimentos nordestinos, a quantidade de postos de trabalho gerados pelos estaleiros saltará de 10 mil, número do ano passado, para 30 mil em 2015.


Além desses projetos maiores, um estaleiro da Hermasa Navegação da Amazônia, na cidade de Itacoatiara (AM), orçado em US$ 10 milhões, solicitou apoio financeiro do FMM.


Nem tudo, no entanto, é facilidade na rota dos estaleiros. O Ceará espera o Estaleiro Promar Ceará (EPC), no Porto de Mucuripe, da STX Europe e PJMR, orçado em US$ 100 milhões. Contudo, o projeto passa por uma situação curiosa: empreendedores e políticos cearenses não se entendem sobre a localização do empreendimento.
É que, na Ponta do Mucuripe, apontada como a melhor localização para o projeto, há dois bairros de classe baixa: Serviluz e Titanzinho. Isso fez com que a própria prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, se posicionasse contra a localização estudada pelo EPC.


Os dois principais executivos dos sócios do EPC, o presidente do STX no Brasil, Valdomiro Arantes Filho, e o presidente da PJMR, Paulo Haddad, no dia 4 de março, após exposição do projeto na Assembleia Legislativa do Ceará, manifestaram publicamente insatisfação com a desavença em torno da localização do projeto. Segundo os executivos, o prazo para o Ceará resolver o licenciamento do estaleiro passaria a ser de seis meses, a contar daquele dia, da apresentação na Assembleia. Caso a celeuma não seja resolvida, a solução seria migrar para outro estado, alertaram. Até o fechamento desta edição, o Promar Ceará não tinha confirmação sobre a sua localização no Ceará ou confirmação das encomendas da Transpetro que somam R$ 570 milhões: um conjunto de oito navios gaseiros. Em jogo, estão 1.800 dos empregos dessa nova e expressiva indústria que invadirá o Nordeste.


Estaleiros no Nordeste*


Alagoas

· Eisa Alagoas, no Pontal do Coruripe. Grupo Sinergy. US$ 750 milhões.

Bahia

· Ebasa, no Distrito de São Roque do Paraguaçu. Consórcio OAS, Sertal e Piemonte. US$ 400 milhões.

· Paraguaçu, no município de Maragogipe. Grupo Odebrecht. US$ 890 milhões.

· Corema Indústria e Comércio, no município baiano de Simões Filho. US$ 60 milhões.

Ceará

· Promar Ceará (EPC), no Porto de Mucuripe. Consórcio da STX Europe e PJMR. US$ 100 milhões.

Pernambuco (Suape).

· Atlântico Sul (EAS). Consórcio Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, PJMR e Samsung Heavy Industries. US$ 890 milhões..

· Schahin-Tomé. Consórcio das empresas Schahin e Tomé. US$ 170 milhões..

· Construcap. Investimento de US$ 100 milhões..

· Alusa. Consórcio Alusa, Galvão Engenharia e Sungdong. US$ 350 milhões..
.

* Valores aproximados de investimento.

Deixe seu comentário

últimas notícias

02 DE SETEMBRO DE 2015

01 DE SETEMBRO DE 2015

30 DE AGOSTO DE 2015

publicidade