Sociedades Classificadoras - Edição 07 - Dezembro de 2008

Sociedades Classificadoras

Em busca das certificações

Sociedades Classificadoras | Edição 07 - Dezembro 2008

Por: Felipe Lima

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Indústria nacional de navipeças corre contra o tempo para obter classificações internacionais de qualidade para seus procedimentos e produtos

por Felipe Lima


O setor naval brasileiro passa por um momento de reoxigenação, retomada de investimentos e, principalmente, de desenvolvimento, que para ser bem sucedido deve acompanhar as novas tecnologias mundiais para construção de navios e embarcações. Porém, aqueles que compõem a grande massa da cadeia produtiva – as indústrias de navipeças e equipamentos navais – temem perder o bonde de otimismo que passa atualmente no País. O motivo para tal temor é a falta de certificações para empresas nacionais. Em um mercado exigente, com rígidos padrões internacionais de segurança, os fornecedores brasileiros correm contra o tempo para atingir os patamares que os estaleiros são obrigados a exigir e que, por enquanto, apenas as indústrias estrangeiras têm atendido. E nesse cenário as chamadas sociedades classificadoras assumem um papel fundamental.



Segundo a Diretoria de Portos e Costas do Ministério da Defesa, atuam hoje no Brasil onze sociedades e entidades classificadoras: American Bureau Of Shipping (ABS), Bureau Veritas, Bureau Colombo, Det Norske Veritas, Germanischer Lloyd, Lloyd’s Register, Nippon Kaiji Kiokai, Registro Italiano Navale, Registro Brasileiro de Navios e Aeronaves, Record Certificação Naval, Autoship Prestação de Serviços de Entidade Certificadora de Embarcações e ABS Group Services. João Carlos Pacheco, gerente geral da ABS no Brasil, (originária dos EUA, tendo aportado em solo brasileiro há 60 anos) explica que a missão das sociedades classificadoras é garantir a segurança do setor, verificando continuamente se o projeto dos navios, rebocadores, barcaças e plataformas, e a construção desses, está seguindo as normas internacionais estipuladas para a cadeia.


Na realidade, cada caldeira, cada parte de mobília naval e até mesmo cada parafuso que compõe um equipamento que será utilizado em um navio possui medidas específicas ou regras quanto à matéria-prima utilizada em sua constituição. Instalações eletrônicas e o conjunto de sistemas que compõem uma plataforma também estão sujeitos às mesmas exigências. Até mesmo a degradação das peças ao longo dos anos e da pintura dos navios entraram na pauta das sociedades classificadoras. Afinal, os navios devem ter um tempo de vida mínimo maior do que 30 anos. No caso da pintura, deve haver uma maior prevenção quanto à corrosão. E diante da preocupação ambiental no meio industrial, motores devem apresentar um menor índice de poluição.



“Até o século XIX, o transporte naval e a indústria marítima não tinham nenhuma segurança. Ainda que o mercado internacional estivesse em outro estágio, ainda vivia-se nos tempos românticos da pirataria. O importador fechava um contrato de compra, mas não tinha certeza de que sua mercadoria iria chegar. Era uma incógnita. No caminho, o navio que a trazia poderia afundar, sofrer problemas, ou simplesmente não seguir a viagem devido a dificuldades técnicas. Foi quando a indústria passou a se preocupar com as qualidades dos equipamentos e buscou a estabilidade para o setor”, conta Pacheco. Dessa forma, as sociedades classificadoras começaram a surgir e a regulamentar a segurança naval.


O atual dilema que vive o segmento no País é fruto do desmantelamento da indústria a partir da década de 80. Nos anos 70, o Brasil figurava na segunda colocação no ranking de maiores construtores de navios – levando-se em conta o volume de entrega de embarcações. Naquela época, tanto os construtores quanto os fornecedores estavam no ápice de seus negócios. “A indústria de base estava em um grau de desenvolvimento que lhe permitia atender às normas. Os construtores só precisavam importar os componentes eletrônicos, pois apenas a indústria de informática não estava à altura. Mas em meados de 80 teve início a derrocada e a falta de demanda fez com que a indústria de navipeças deixasse de acompanhar o desenvolvimento tecnológico”, lembra o diretor industrial do Estaleiro Atlântico Sul (EAS), Reique Abe.


Abe acrescenta ainda que o que se vê neste momento de retomada são as indústrias nacionais que voltaram a aparecer ainda sem força para competir com as internacionais, especialmente as coreanas, japonesas e norueguesas. “Houve uma defasagem”, sintetiza. Já o gerente geral da ABS acredita que o atual problema de inserção das empresas brasileiras seja por falta de escala de mercado. “Existe certo misticismo em torno do setor naval. Muitas empresas brasileiras, fornecedoras de outras cadeias, já atendem os requisitos. Capacidade existe para fabricantes de válvulas, bombas e geradores elétricos, por exemplo. O custo é que continua sendo o grande gargalo e o fato de estarmos em um momento inicial de retomada faz com que falte escala para trazer retorno aos investimentos feitos na busca pelas certificações”, justifica.


Ainda que o EAS tenha firmado o compromisso de privilegiar os fornecedores brasileiros e locais, a empresa deve também atender às exigências internacionais e, conseqüentemente, contratar empresas e adquirir materiais que possuam as certificações necessárias. Na lista de componentes que pretendem ser demandados da indústria nacional estão âncoras, guinchos, escadas, tubulações, bombas centrífugas, conjunto de soldas, equipamentos de cozinha e móveis de madeira. O EAS firmou ainda uma parceria com o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Estado de Pernambuco (Simmepe) para integração da cadeia produtiva local.


Entre as demandas de produtos que podem ser atendidas pelas empresas eletro-metal-mecânicas locais estão chapas de aço, tubos, barras metálicas, perfis metálicos, ferramentaria, material elétrico em geral e conexões. Galvaniza, Metalúrgica Metalgill Indústria e Comércio, Ferramentas Gerais, Aço Nobre Metais Especiais e CN Produtos Siderúrgicos são algumas das empresas locais do setor que já têm contratos com o EAS. O projeto de criação de um cluster naval no entorno do EAS, seguindo um modelo semelhante ao da indústria automobilística, prevê a geração da maior parte dos 25 mil empregos indiretos que a corporação projetou para Pernambuco.


E os planos de integração são ainda maiores no médio e longo prazo. Para formar um cluster naval no entorno da empresa, o estaleiro vem batendo sempre na tecla de que é preciso ocorrerem associações de empresas locais com companhias internacionais que já detêm a tecnologia e as certificações exigidas. O próprio EAS fez isso, trazendo como sócia para o negócio a coreana Samsung. “Essas parcerias permitem que no curto espaço de tempo as empresas possam ser inserir na cadeia nacional. Mas ao mesmo tempo deve-se investir na capacitação e investigar o surgimento de novas tecnologias, treinando as pessoas para atender esses requisitos. Para nós é muito mais interessante adquirir de empresas nacionais, pois o custo pode ser menor, além da questão geográfica e de rapidez na entrega”, comenta Abe.



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O ex-secretário de Desenvolvimento de Pernambuco, Alexandre Valença, é um exemplo de que a associação com empresas mais gabaritadas pode encurtar o caminho das empresas ao estaleiro. Ao formar uma joint-venture com a companhia fluminense Deconav, especializada na fabricação e instalação de mobílias para navios, o empresário corre na frente na disputa para se tornar fornecedor desses componentes para o EAS. A nova empresa, a Decoship, será instalada no entorno do estaleiro e deve gerar 100 postos de trabalho.



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