Márcio Stefanni

A Economia pernambucana vai bem, mesmo com uma desaceleração provocada pela queda no nível de atividade da construção civil e da indústria de transformação. E essa é uma constatação,...

A Economia pernambucana vai bem, mesmo com uma desaceleração provocada pela queda no nível de atividade da construção civil e da indústria de transformação. E essa é uma constatação, fruto de pesquisas nos mais diversos setores. A XIV Análise da Ceplan Consultoria mostra que os números de Pernambuco continuaram crescendo acima da média nacional. No primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2012, o aumento do Índice de Atividade Econômica medido pelo Banco Central foi de 2,9% para o Brasil, de 4,2% para o Nordeste e de 1,8% para Pernambuco. À frente da pasta responsável por administrar o Desenvolvimento Econômico do Estado está o advogado e funcionário do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), Marcio Stefanni. Natural de João Pessoa e crescido em Petrolina, no sertão pernambucano, Márcio Stefanni Monteiro Morais, 36 anos, já foi presidente da AD Diper (vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico) e assessor da Diretoria de Inclusão Social e Crédito do BNDES, o que lhe rendeu uma grande paixão pelas políticas públicas de desenvolvimento social. O advogado formou-se pela Faculdade de Direito da UFPE, ingressou no banco em 2002, quando realizou concurso público no Rio de Janeiro. O secretário acumula a função de presidente de Suape, que tem seu Território Estratégico responsável por 10% da economia do Estado. Nessa entrevista, Marcio Stefanni falou dos investimentos nos portos pernambucanos, fez um balanço do ano de 2013 e anunciou as perspectivas para o próximo ano. Ele também respondeu a perguntas polêmicas sobre a possível onda de demissões nas obras de Suape.
Cais do Porto - Ed25-8

CAIS DO PORTO.COM – Vamos começar a entrevista falando sobre os portos de Pernambuco. Apesar de já ter se expandido muito nos últimos 35 anos, completados no dia 7 de novembro, ainda há bastante crescimento a vista para o Complexo Portuário e Industrial de Suape. São 45 indústrias em fase de instalação. Qual o segredo do sucesso desse porto?

Márcio Stefanni – Suape tem características naturais que lhe propiciam ser um grande porto. É totalmente abrigado, não precisa de dragagem o tempo todo, tem um canal natural muito profundo e nós estamos trabalhando para melhorá-lo ainda mais. Pernambuco está numa localização geográfica estratégica, muito perto da África, da Europa, da América do Norte. O Brasil, que é um grande país, tem a necessidade de mais um grande porto, além de Santos. E Suape está aí, um investimento pernambucano, um sonho que se tornou realidade há mais de 35 anos e hoje se tornou esse grande porto mundial.

CP – Existe uma mudança de perfil da região conhecida como Território Estratégico de Suape a partir do crescimento do Complexo. Houve benefícios e malefícios, como violência, trânsito caótico. Como o Governo se estrutura para resolver esses problemas?

MS – Cerca de 10% da riqueza pernambucana é produzida no Território Estratégico de Suape. Então lá são gerados impostos e fontes para que nós possamos investir nessas melhorias necessárias. Nos últimos cinco anos, foram investidos em mobilidade, na qualificação viária do Complexo, cerca de R$ 431 milhões para melhorar a fluidez do tráfego e a qualidade de vida das pessoas. Nós queremos que elas trabalhem, mas que também voltem pra casa, fiquem com seus filhos, se divirtam. Os recursos nos fazem também financiar o Pacto pela Vida, um programa de sucesso do Governo do Estado, que tem a atenção para a violência que ali existe, já que chegou muita gente de fora, que não tinha a cultura do local. Mas nós procuramos pacificar a região. Sabemos que nem tudo está perfeito, mas está melhor do que antes.

CP – O porto do Recife chega aos 95 anos registrando um cenário animador e diferente do que foi visto em anos anteriores. Quais as perspectiva para esse porto em 2014?

MS – Recife é complementar a Suape e é nesse sentido que a gente espera que o porto atue em 2014. Houve uma reanimada na movimentação de cargas dele com esse boom econômico da área norte do Estado, com a chegada da Fiat. Essa semana, por exemplo, eu recebi o pessoal da Gulftainer para falar sobre novos investimentos.

CP – Já chegou a hora de começar a construção do terceiro porto pernambucano para atender a demanda da Fiat, por exemplo?

MS – O Porto de Goiana, que foi muito falado, não conquistou a viabilidade na PPP (Parceria Público-Privada). No entanto, hoje, com o novo Marco Regulatório, um empresário pode chegar lá e dizer que quer fazer um porto, mas isso demanda investimentos altíssimos.

CP – O crescimento de Pernambuco trouxe a exigência da criação de novos cursos técnicos, profissionalizantes em setores da Economia que não eram tão conhecidos. Como o senhor tem observado a capacitação da mão de obra especializada para a indústria no Estado?

MS – Quando o investimento chega a uma cidade, é preciso criar não apenas a infraestrutura física, mas também a social. É necessário treinar gente. Por exemplo, quando chegou a Ambev em Itapissuma, foram gerados muitos empregos, mas não havia muitas pessoas capacitadas no município para trabalhar. Em Pernambuco, quando uma empresa declara a intenção de vir aqui se instalar, nós perguntamos qual o perfil do empregado que ela deseja. Ela nos responde, nós encaminhamos para a Secretaria de Qualificação e Emprego do Estado e a Secretaria promove cursos para a formação exigida pelas empresas. Algumas vezes, os próprios empresários anunciam as vagas, seja por carros de som, ou mesmo pelas rádios locais, e buscam esse trabalhador. Mas ele espontaneamente buscar a vaga indo para a porta da empresa não seria o melhor caminho. O ideal é esperar ser provocado a partir da realização dos cursos e assim se qualificar para as oportunidades que ora chegam ao nosso estado.

CP – E quais são as principais áreas de oportunidade que têm chegado para Pernambuco?

MS – Com o novo perfil da economia pernambucana, nós podemos dizer que são: o setor metal/mecânico, o que atende as indústrias eólicas, o que fornece equipamentos para refinaria em construção e o que necessita de manutenção sempre, tal qual o setor de caldeiraria.

CP – Ainda falando de empregos, é preocupante a vinda de tantos trabalhadores de outros estados para o Nordeste? Depois que todos esses empreendimentos forem concluídos, a região vai conseguir absorver essa mão de obra, ou a perda desses profissionais é o caminho natural?

MS – Quanto à desmobilização dos profissionais, nós trabalhamos com a esperança de que o boom econômico permaneça. Nós temos grandes obras a serem licitadas. No nosso litoral Norte, estão a Fiat e o complexo automotivo em construção. Se a gente tem o investimento da Transnordestina, se a Siderúrgica Suape começa a ser construída, assim como o Arco Metropolitano – que foi prometido agora para os próximos meses -, então existe a possibilidade de relocar pessoas nessas obras. Temos várias construções no entorno de Suape, de habitações do Programa Minha Casa Minha Vida. Temos que esperar que essa descida de profissionais seja um pouso suave e não uma queda abrupta, até porque tem gente que anda com a obra. Existem trabalhadores que não são daqui, são pessoas especializadas daqueles grandes consórcios que vão enfrentar outras grandes obras. Eu, por exemplo, passei dois anos indo para o Rio e vi muita gente nos aviões, funcionários, que, toda semana, iam e voltavam para cá.

CP – Mas e a Petrobras tem repassado informações sobre essas demissões da Refinaria Abreu e Lima para o Governo do Estado?

MS – A gente tem conversado com a Petrobras. Algo que foi um complicador da situação foi o fato de a Refinaria deixar de ser empresa e passar a ser Gerência. Foi perdida muita autonomia e passamos a precisar nos reportar ao Rio de Janeiro. Mas Marcelino Guedes (presidente da Refinaria) tem uma interlocução muito boa conosco.

CP – Os economistas dizem que a diminuição da contratação para a construção de grandes obras como a da Refinaria é a grande vilã para o índice de desemprego na Região Metropolitana do Recife que, em julho, chegou ao patamar de 8,7%. Qual seria a solução para se evitar tantas demissões?

MS – Na minha opinião, uma solução seria a Petrobras passar a produzir gasolina em Suape. Isso mobilizaria mais 20 mil homens na obra. O Brasil é deficitário em gasolina, as contas externas brasileiras estão castigadas, estamos exportando divisas, enquanto o Brasil exporta óleo cru e importa gasolina. E qual o lugar que está licenciado, terraplanado e que tem gente que sabe construir obra de grande porte? Suape, na Refinaria Abreu e Lima. No Ceará ou no Maranhão, não existe nem licença ambiental, nem indústria metal/ mecânica perto. Nós fizemos isso.

CP – Foi anunciado que no primeiro semestre de 2014 será lançado um dos maiores projetos habitacionais de Pernambuco, com 2.620 casas nos moldes do Programa Minha Casa Minha Vida. Além da doação do terreno, por parte de Suape, há um investimento de R$ 234,5 milhões obtidos mediante empréstimos com a Caixa. Em que fase está o projeto?

MS – Nós temos duas licitações em andamento para o início das obras do habitacional Vila Claudete. A construção das casas já foi licitada, então, nós esperamos a assinatura do contrato do Governo com os financiadores, além da licitação para construção das obras de infraestrutura, como saneamento, iluminação e tudo o que o povo merece.

CP – O Brasil tem a necessidade da presença de empresas especializadas em fornecimento de peças para o setor naval, petroquímico, de óleo e gás, com qualidade de primeiro mundo. Comitivas do Governo têm feito viagens para atrair essas empresas, como recentemente para Inglaterra e Alemanha. O que essas viagens têm surtido de efeito prático?

MS – A Convida Suape fechou uma parceria com uma empresa chamada Living PlanIT que tem, entre seus sócios, a McLaren. Serão colocados 150 engenheiros para pensar cidades inteligentes que receberão essas empresas para prover os sistemas. Na Alemanha, fomos no estado VTB, onde fica a cidade de Stuttgart, que tem uma tradição grande na indústria metal/mecânica. Foi feito um estudo no Nordeste e se constatou que Pernambuco é o melhor Estado para se investir. Nós fomos mostrar a eles o que tem aqui, em termos de oportunidades. Levamos empresários que deram depoimentos do que precisaram comprar para se instalar em Pernambuco, apontando quais as vantagens em se ter indústrias aqui instaladas. Nós fomos, na verdade, “vender” nosso estado para adensar as cadeias produtivas que aqui estão. Tínhamos como alvo até as médias e pequenas empresas. Na Inglaterra, o foco maior foi nas indústrias de óleo e gás, onde apresentamos o Estado para mais de 200 pessoas. Foi muito bom, porque despertou curiosidade. Os alemães já vieram no nosso estado e a gente devolveu a visita. Os ingleses devem vir no próximo semestre.

CP – Muitos empresários reclamam da burocracia para instalação de indústrias em algumas cidades pernambucanas. Há relatos de empresas que precisaram readequar projetos, esperar por anos para terem a papelada aprovada junto ao Governo. O que a Secretaria tem feito para tentar diminuir essa burocracia?

MS – O Governo Eduardo Campos mudou o incentivo fiscal do Estado e uma de nossas metas estratégicas é a interiorização do desenvolvimento. Sendo assim, nós buscamos levar as empresas mais a Oeste, ou a Norte e Sul do que em relação ao município do Recife. Em Sirinhaém, por exemplo, nós desapropriamos uma área em que uma empresa havia demonstrado interesse em se instalar. No entanto, ela não apresentou capacidade financeira de seguir com as obras. Caso nós fizéssemos a terraplanagem, como prometido, gastaríamos recursos públicos e a empresa não se instalaria. Aguardamos a negociação, o firme da empresa, a notícia de que ela teria um financiamento – o que não aconteceu.

CP – Que outras áreas e regiões dentro do Estado estão sendo desenvolvidas? Há recursos para produção agrícola, mineral, indústrias de beneficiamento?

MS – Pernambuco tem 184 prefeitos, que estão em constante contato conosco em busca de recursos. Estamos investindo no setor de leite, de mel do Araripe, de melão do Inajá, chegamos com recursos em cidades como Trindade, Araripina, Exu. Vamos inaugurar em dezembro o Mercado da Sulanca de Palmares. Estamos gerando emprego e renda para os cidadãos continuarem na mesma atividade que seus pais e avós desenvolviam. Recentemente, eu estive em Altinho para conversar com o prefeito sobre como poderíamos inserir o município no boom de confecção. A gente fez um investimento de R$ 215 mil em Cupira, na construção de um centro bem equipado que teve um efeito transformador. Criamos uma Gerência Geral de Economia Criativa dentro da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Junto com o Cais do Sertão, a gente está fazendo o programa Conexão Total, pensando em moda, gastronomia, música. Provavelmente esse ano nós ainda vamos assinar um convênio com a Facep, a Associação Comercial e a Agefepe para financiar e ensinar boas práticas de negócios a 25 municípios do interior – para que, dessa forma, os produtos dessas cidades cheguem à capital. Queremos fechar a cadeia, investir no grande empresário, mas sem esquecer o médio, o pequeno.

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