Manoel Ferreira Júnior

Por Ana Matos e Rodrigo de Luna Dentre os diversos setores da economia brasileira, o segmento logístico, de transporte de cargas, é hoje a grande preocupação do empresariado. Diversas...

Por Ana Matos e Rodrigo de Luna

Dentre os diversos setores da economia brasileira, o segmento logístico, de transporte de
cargas, é hoje a grande preocupação do empresariado. Diversas medidas estão sendo tomadas para
atender ao crescimento tecnológico e às demandas do mercado, para garantir a agilidade na entrega
das mercadorias, produtividade e evitar o apagão logístico.
Nesta edição, convidamos o empresário Manoel Ferreira Junior, presidente da Agemar, para
falar sobre as ameaças e oportunidades desse segmento. Aos 62 anos, sendo 34 dedicados à área de
navegação e 30 à empresa da família, Manoel carrega consigo uma história de sucesso. A trajetória no
ramo marítimo surgiu meio que por acaso. “Eu fui resolver um problema numa empresa de navegação
e acabai me apaixonando por essa área”, lembra.
Manoel está à frente de uma das operadoras portuárias mais importantes do país, responsável
por, pelo menos, 35% da operação no Porto do Recife, trabalhando com cerca de 20 clientes e
empregando mais de 120 funcionários. Nesta entrevista exclusiva para Cais do Porto.com, ele falou
sobre logística, cabotagem, cruzeiros, gargalos na operação portuária, investimentos da empresa,
dentre outros assuntos.

Ana Cláudia Matos e Rodrigo de Luna

CAIS DO PORTO.COM – Hoje, quais são as principais áreas de atuação da empresa, cargas movimentadas?
Manoel Ferreira Jr. – Nós somos operadores portuários e estamos verticalizando a atuação dentro do armazém. Estamos nos consolidando, baixando os custos para baixar preço no mercado. As nossas vendas hoje estão caindo com a diminuição de fluxo de cargas, por isso, estamos investindo em outras áreas como o fretamento de navios. Dentro da área de logística, somos bem verticalizados.
Começamos a operação desde o navio, do agenciamento. Da operação portuária, nós vamos até a armazenagem, onde temos a parte de armazém geral, com facilidades para o importador/ exportador. Temos, também, a parte de locação de equipamentos que utilizamos tanto para a operação dentro do armazém quanto para terceiros. E, dentro dessa verticalização, nós temos a área de contêiner, locação e transformação de contêineres, criação de espaços inteligentes. Temos uma empresa de navegação de cabotagem com autorização para o transporte de inflamáveis.
CP – Há previsão de novos investimentos na Agemar para que o volume de movimentação seja ampliado ainda mais?
MFJ – Devemos investir R$ 3 milhões em aeroportos. Na Agemar, também perto dos R$ 3 milhões. Temos uma
área nova que é a operação de terminal de líquidos, onde a sociedade já está fechada e vamos divulgar em primeira
mão para a revista. Será no Porto de Pecém. É uma área que vislumbramos bastante.

CP – Recentemente, a Agemar inaugurou uma nova unidade de logística no Cabo de Santo Agostinho. Como está a distribuição das unidades em Pernambuco?
MFJ – No Cabo de Santo Agostinho, a Agemar atua na parte de armazéns gerais, onde temos duas unidades: uma
delas no Cone Suape – um investimento elevado porque é um armazém grande, de 8 mil m², arrendado e de primeira linha, operando desde setembro de 2012. A outra área tem 5 mil m². No Recife, a área é de 13 mil m².
CP – A Agemar tem expandido seus negócios com novos produtos, serviços e também com novas parcerias. No que diz respeito às parcerias internacionais, como tem sido esse trabalho?
MFJ – Mesmo a Agemar tendo um acordo com uma empresa de Angola, onde fizemos um contrato para transferência de tecnologia, por enquanto, não pensamos em internacionalização. Eu acho que
temos muita oportunidade no Brasil, muito crescimento, Pernambuco se consolidando com tantos investimentos. No Nordeste, por exemplo, o Porto de Cabedelo tem bastante espaço para operações.
CP – Na sua opinião, quais os principais desafios da cabotagem enfrentados pelos portos brasileiros?
MFJ – Sobre a cabotagem, temos uma atuação bem dirigida, se bem que sabemos que é um mercado muito
promissor, até porque analisando as capitais ao longo da costa brasileira, a carga de contêineres está consolidada.
No entanto, a participação precisa partir mais da iniciativa privada. Houve um enxugamento muito grande da
navegação brasileira, por causa de custos, e passamos a fretar mais navios. A cabotagem já está consolidada, tem apenas que aumentar a frequência, pois a carga não pode ficar parada. Uma vez movimentando a carga, aumentam as demandas. É preciso dar um tratamento melhorado para alguns destinos, no caso de Manaus, por exemplo, que é um pólo gerador de exportação. Precisamos investir em navios.
CP – Como tem sido a atuação da Agemar nesse transporte de cabotagem?
MFJ – Hoje, fazemos o abastecimento de óleo diesel e combustível em 8 www.caisdoporto.com Fernando de Noronha e vamos começar a fazer também o transporte do combustível de aviação. Até seis meses atrás, éramos os únicos a fazer isso no arquipélago. Dentro dessa área de verticalização, começamos a fazer a operação de passageiros de cruzeiros. Toda a operação de embarque e desembarque portuário no Recife fomos nós que operamos
como agente portuário. O transbordo (shutl = transfer) e toda a infraestutura nós oferecemos para os passageiros
das operadoras Costa Cruzeiro, Royal Caribean, PullmanTur. Atendemos cerca de 50.000 passageiros.
CP – Muitos armadores reclamam da demora e fila de espera para descarregar em alguns portos. A Agemar sofre com esse gargalo?
MFJ – Aqui no Recife o fator climático nos favorece bastante, temos uma regularidade para atracar.
CP – O modal marítimo é considerado pelos especialistas o mais eficaz, porém, nem sempre é o mais
utilizado. Na sua opinião, como adequar essa distorção?

MFJ – Nós temos, no Brasil, entraves logísticos, a carga não sai. O navio descarrega, mas para retirar a carga do terminal é complicado, tanto em contêineres quanto à granel. Se a carga passasse em vez de 10 dias para desembaraçar, apenas três, se ganharia três vezes mais. Se eu faço um contrato com um navio para
descarregar em cinco dias e não cumpro, é preciso pagar a demurrage (multa que custa o valor do navio
somado à expectativa de lucro). A média dos valores dos navios que vem para cá é de US$ 25 mil a US$ 35 mil.
E quem paga isso é o importador. Ele vai pagar o frete mais a multa. O Brasil precisa investir em servidor público.
Os órgãos públicos trabalham oito horas por dia apenas, de segunda a sexta, enquanto os navios estão
descarregando 24 horas todos os dias.
Apresentação1

CP – O senhor acredita em um “apagão logístico”?
MFJ – Não vejo bem uma questão de um caos total como um apagão logístico. O Brasil deve investir mais em estrutura, para que se possa facilitar as coisas e ganhar mais.
CP – O Governo Federal está investindo no Plano Nacional de Logística Integrada, o PNLI. Especialistas defendem uma logística integrada como solução para os problemas enfrentados no transporte de cargas do país. O
senhor concorda com essa tese?
MFJ – Existe hoje a criação de uma cultura logística eficaz. Não adianta apenas ter profissionais bem qualificados, mas o mercado tem que absorver e dar condições para esses profissionais trabalharem. A operação logística é importantíssima quando vista como um todo e não como uma operação segmentada. A logística, antigamente, era muito empírica.

CP – A Agemar opera em algum porto que tenha implantado o Projeto Porto sem Papel? O senhor percebeu efetivas mudanças na agilidade dos serviços?
MFJ – No Recife, o Porto sem papel vem funcionando razoavelmente bem, pois, facilita os procedimentos em dois
âmbitos. O primeiro é o tratamento do navio, onde ele deve atracar e operar.
Com o Porto sem papel, você faz isso direto, sem precisar de Receita, Anvisa, etc.. Também tem a parte do navio em diante, com o despachante, em que as coisas estão bastante burocratizadas. No Brasil, a média para você liberar a carga, desde que o navio atraca, é de 10 dias. Em Cingapura ou Hong Kong, são 18 horas. Aqui no Brasil, o custo logístico termina ficando muito alto para o país e para o consumidor. No final, sai uma conta muito cara.
CP – A Medida Provisória 595 tem gerado uma grande polêmica em todo o país. A chamada MP dos Portos, editada pelo governo em dezembro, visa agilizar e baratear o frete marítimo, aumentar a competitividade do setor e reduzir o tempo médio de carga e descarga, considerado um dos principais gargalos para o crescimento do Brasil. Como o senhor avalia essa Medida?

MFJ – É uma medida que preocupa porque centraliza processos licitatórios para a Secretaria dos Portos, o que
burocratiza e demora mais ainda os procedimentos. Hoje, com relação a uma simples entrada de um ofício na
Antaq, se demora quase seis meses para se ter a resposta. Agora, com a medida, a SEP vai fazer o estudo do
processo licitatório e a Antaq é quem vai licitar. Hoje, na Antaq, há 53 terminais com contratos vencidos, que
são os anteriores aos 93 que vão ser licitados ainda. Com a MP, mudou a questão de licitações, porque agora
tem a questão do menor preço. Sobre o arrendamento dos terminais em dois períodos (10 primeiros anos,
prorrogáveis por mais 10, se for conveniente às partes) é uma problemática. Faltando poucos anos para a primeira parte do contrato vencer, o porto tem que investir, por exemplo, R$ 500 milhões, sem ter a certeza se o prazo vai ser prorrogado, se o contrato vai ser renovado. Sendo assim, fica difícil, já que o operador não vai ter a recompensa desse investimento em poucos anos.
CP – Como a Agemar tem aproveitado o crescimento de Pernambuco e os investimentos em grandes empreendimentos, a exemplo da Refinaria, e a construção da Fiat?
MFJ – A Refinaria está trazendo termoelétrica, petroquímica. Mas o granel líquido não atrai novos clientes,
é mais uma questão de portfólio de serviços. Com a Fiat, as coisas estão se expandindo para o outro lado do
estado, no caso a área norte. Mas não temos que nos antecipar. Estamos esperando as coisas se consolidarem
por aqui. Obviamente, também estamos de olho lá, mas não agora. Vemos que o Porto do Recife tem capacidade
suficiente para dar suporte à Goiana.
CP – A Agemar também tem partido para atuação em aeroportos?
MFJ – Hoje, ganhamos concessões através de licitações para operarmos em dois aeroportos: Bonito (MS) e Fernando de Noronha (PE). Construímos o aeroporto de Bonito, onde a administração é totalmente nossa. Em
Noronha, o aeroporto transporta cerca de 75 mil passageiros por ano. Ficamos responsáveis pela parte de investir em equipamentos; já colocamos portas e raios-X, estamos implantando um posto de abastecimento de aviação.
CP – Qual o segredo para manter uma empresa como a sua atuando, com sucesso, por mais de 30 anos?
MFJ – Comecei com a Agemar há 30 anos e tudo era feito na base da aprendizagem, não tínhamos cursos,
teoria. Meu pai tinha navio que transportava cargas, até de boi da Bahia para Pernambuco. Nós somos os mais
antigos operadores portuários emergentes em atuação em Pernambuco hoje. O que aconteceu é que nós
diversificamos, começamos como agência, depois operador portuário, e investimentos muito em equipamentos.
Hoje a Agemar detêm 35% de operações no Porto de Recife. 

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