Alex Mendes

Ana Cláudia Matos e Rodrigo de Luna O relatório do Fórum Econômico Mundial apontou recentemente que a qualidade da infraestrutura brasileira está em 107º lugar numa lista formada por...
Cais do Porto - Ed23-6

Ana Cláudia Matos e Rodrigo de Luna

O relatório do Fórum Econômico Mundial apontou recentemente que a qualidade da infraestrutura brasileira está em 107º lugar numa lista formada por 144 países. Os portos brasileiros estão em 135º lugar. Existe uma forte e generalizada preocupação, tanto do poder público quando da iniciativa privada, quanto à ineficiência do setor. O consenso geral é de que é preciso, antes de tudo, buscar mecanismos de aprimoramento do desempenho do próprio Governo Federal na gestão dos contratos e obras. Já chegamos ao segundo semestre, e dos R$ 15 bilhões destinados a obras de infraestrutura, até o momento foram executados apenas R$ 2 bilhões. O acesso tecnológico é condição sine qua non para garantir a agilidade e produtividade na entrega das mercadorias. Para falar sobre tecnologia, convidamos Alex Mendes, presidente da HTS (Hi-Tech Solutions) Brasil, uma empresa israelense líder em OCR (Optical Character Recognition) e em tecnologia para reconhecimento de caracteres em contêineres, placa de veículos e radares de alta e baixa velocidade. Fundada em 1992, a HTS atua em mais de 40 países e tem cerca de 1000 sistemas implantados em diversos portos internacionais, fornecendo soluções para logística e segurança. Presente no Brasil desde o início do ano, a HTS é marca exclusiva do brasileiro Ergos Group, fundado em 2009, e está presente em serviços de monitoramento de rodovias e portos, como o Tecondi, em Santos, e Grupo Libra, em Santos e Rio de Janeiro.

CAIS DO PORTO.COM – Segundo relatório do Fórum Mundial, o Brasil está em 134º lugar com relação à infraestrutura de transportes. Os portos estão em 135º lugar; as ferrovias brasileiras na 100ª posição no ranking; as rodovias, no 123º lugar e o transporte aéreo em 134º, abaixo da Nigéria. Qual a visão da empresa sobre os problemas dos modais logísticos brasileiros?

Alex Mendes – Existem vários pontos que podem ser destacados, mas principalmente temos de considerar a falta de planejamento para soluções que devam ser implementadas. Muitas vezes existem projetos de esfera estadual, federal e municipal que não convergem e fazem com que a continuidade seja um problema. Existe tecnologia, vontade política, vontade da iniciativa privada, mas não existe um planejamento centralizado para todas estas ações. Além disso, a máquina governamental não consegue suportar estes projetos em função da velocidade necessária, a burocracia atrapalha e faz com que os processos demandem anos para acontecer. Quando acontecem, estão defasados e desatualizados.

CP – Com escritórios nos Estados Unidos e na Europa, quais foram os atrativos para a HTS ter vindo se instalar e buscar clientes no Brasil?

AM – O Brasil possui um mercado que só tende a crescer, com grandes e importantes terminais, porém faltam investimentos em automatização. Atualmente, há uma pressão grande por automação, tanto por parte do governo, quanto por parte dos próprios terminais, como forma de se manterem competitivos. Por isso acredito que este será um negócio de longo prazo. Algo que irá nos manter aqui por muitos anos.

CP – A HTS é uma empresa do Ergos Group, especialista em tecnologia para reconhecimento de dados. Na prática, como funciona a tecnologia OCR?

AM – É importante destacar que a HTS, agora Certus, é que é a especialista em tecnologia para reconhecimento de dados. A tecnologia OCR permite uma variedade de aplicações em sistemas de carga, transporte e logística de tráfego, automação e segurança. Instalado nos gates, por exemplo, o sistema permite reconhecer a placa do caminhão, o número do contêiner e, em seguida, transmitir as informações que liberam o acesso dos veículos e cargas. Além disso, oferece imagens e vídeos para inspeção de danos, garantindo a integridade da carga transportada.

Cais do Porto - Ed23-8

CP – Qual o percentual de eficiência na operação portuária a partir da implantação do OCR? E em relação ao custo financeiro, qual o ganho imediato?

AM – Podemos dizer que muda a gestão operacional, onde os terminais operam hoje 100% das atividades, para uma realidade entre 3 a 5% , chamamos de mudança de gestão através da exceção. Passa-se a gerenciar as exceções ao invés da regra. O retorno do investimento está relacionado diretamente ao tamanho e volume de carga movimentada.

CP – Que tipo de soluções para logística e segurança a HTS fornece para os clientes que já possui no Brasil, e em que segmentos eles atuam?

AM – Atualmente, a HTS Brasil opera o sistema OCR nos principais terminais brasileiros: Tecondi, Rodrimar, Ultra e Stolthevan, em Santos (SP), Grupo Libra, em Santos e Rio de Janeiro, e Super Terminais, em Manaus. A empresa também oferece a aplicação da mesma tecnologia OCR para reconhecimento de placas de veículos e radares de alta e baixa velocidade, como solução para a segurança em cidades e rodovias. Neste segmento, desde o final de 2012, o Consórcio Ergos Brasil, por meio da sua marca HTS Brasil, vem implantando a tecnologia OCR nas câmeras localizadas no embarque e desembarque de seis travessias administradas pela Dersa, de 12 cidades do Estado de São Paulo. Só na travessia Santos-Guarujá, considerada a maior do mundo em volume de carros, foram utilizadas 101 câmeras. A tecnologia vem contribuindo para a gestão dos serviços e melhoria das informações aos usuários das balsas, incluindo a situação das filas.

CP – A HTS Brasil divulgou uma expectativa de faturamento 55% superior ao do ano passado. Em meio a essa crise política e insatisfação social, como a empresa está percebendo as manifestações em todo o Brasil? Qual a perspectiva de crescimento no país?
AM – Ainda estamos esperançosos com os nossos números, mas estamos também aguardando a estabilização do mercado para que possamos rever esse índice.
CP – Como pretende aumentar o número de contratos da HTS no Brasil? Que outros portos ou regiões brasileiras estão nos planos da empresa?

AM – Atualmente, a empresa possui uma carteira de 11 clientes, entre eles os principais terminais portuários do Brasil – Santos, Rio e Manaus. Agora, sem deixar de lado os grandes players, estamos partindo para a estratégia de buscar clientes portuários de médio e pequeno porte. Com a demanda crescente do mercado, o plano da Ergos e HTS Brasil é ter 55% do mercado desse tipo de tecnologia no Brasil em três anos.

CP – No Brasil, o Tecondi é o primeiro terminal portuário a implantar esse sistema da HTS. As obras para instalação dos equipamentos de automatização dos 22 gates do Tecondi, em Santos (SP) já começaram? Fale um pouco de como será essa operação e que vantagens operacionais a empresa passará a ter depois da instalação do sistema de OCR (Optical Character Recognition).

AM – Sim, e estamos em fase final de implementação. Podemos afirmar que será o primeiro terminal portuário com o GATE automatizado. Trata-se de um longo processo, mas que – inevitavelmente – será o futuro de muitos terminais no País.

CP – Recentemente, foi assinado um contrato de R$ 1 milhão com o Grupo Rodrimar no Porto de Santos, que prevê a instalação da tecnologia OCR em quatro Gates do terminal portuário. Quais foram os maiores gargalos nessa implantação?

AM – Estamos em fase de implementação e os desafios são grandes, principalmente no tocante à infraestrutura disponível. Não existe espaço físico para se implementar tecnologia nos acessos e nossa área de Engenharia deve ser bastante atuante, a fim de se garantir produtividade e assertividade no processo de leitura.

CP – Nova tecnologia demanda mão de obra qualificada para implantar equipamentos e sistemas, e garantir assistência aos clientes. Como a empresa está formando essa mão de obra?

AM – Estamos nesse momento em mais uma fase de capacitação com instrutores internacionais de nossa matriz, proporcionando e compartilhando conhecimento com nossos colaboradores. Os palestrantes são pessoas que implementaram automação nos maiores e melhores portos do mundo. Isso nos deixa bastante tranquilos quanto ao processo de capacitação.

CP – Existe alguma possibilidade desses equipamentos no futuro serem fabricados no Brasil? Quais os portos no mundo que já possuem essa tecnologia?

AM – Sim. A HTS tem uma base instalada de mais de 750 sistemas de OCR em mais de 50 instalações e 25 países, incluindo os portos das cidades como Seattle e Costa Oeste (EUA), Antwerp (Bélgica), Lisboa (Portugal), Dubai, Rotterdam (Holanda) e Algeciras (Espanha), este o porto mais automatizado do mundo.

CP – Quais são os cases de sucesso que a HTS já pode relatar de seus clientes no Brasil? AM – Libra Terminais , Tecondi e Super Terminais, em Manaus.

CP – Os portos brasileiros (públicos e privados) movimentaram em 2012 um total de 904 milhões de toneladas de carga. Em contrapartida, há um déficit de 124 bilhões em investimentos de infraestrutura. Hoje, o Brasil investe apenas 2,1% do PIB, quando deveria ser, no mínimo, 5%. Estudos da CNI revelam que é preciso investimentos de R$ 55 bilhões em infraestrutura para melhorar a logística em 20 anos. A HTS está preparada para atender e monitorar todo esse crescimento em portos e rodovias?

AM – Sem dúvida, a HTS Brasil, por meio de sua matriz, está preparada para lidar com os mais diversos projetos, levando-se em conta os curtos prazos e as muitas exigências dos clientes locais. A experiência internacional da companhia e a estratégia de adaptar a automação de acordo com as necessidades físicas de cada terminal atendido pela empresa são diferenciais importantes e que têm sido determinantes para o sucesso da empresa no país. Sempre tivemos a preocupação de gerenciar não somente a tecnologia, mas também os projetos de implementação e o design dos produtos, adaptados para cada tipo de uso. A equipe brasileira possui uma grande habilidade de identificar qual melhor forma de executar a tecnologia de acordo com a demanda do cliente.

CP – Muitos armadores reclamam da demora e da fila de espera para descarregar em alguns portos. Com tanta experiência internacional, que tipo de medidas devem ser tomadas para resolver esses problemas?

AM – Esses problemas de acesso aos portos não são exclusivos do Brasil. No de Los Angeles, há grandes filas nas estradas, o mesmo em Rotterdam ou em Algeciras, na Espanha. O principal ponto é que não existe muita diferença na quantidade de acessos ao porto, mas sim o volume de inteligência aplicado nos terminais e na logística. Além disso, os processos são respeitados e fazem com que a admissão de uma carga seja ágil. Acreditamos que a solução no Brasil seja a adoção de projetos bem elaborados e de longo prazo.

CP – A Medida Provisória 595 gerou diversos debates e uma grande polêmica em todo o país. Apenas dois países no mundo, Inglaterra e Nova Zelândia, possuem sistemas parecidos. Como o senhor avalia essa Medida? É um avanço ou um retrocesso?

AM – Acho que um avanço, mas alguns cuidados devem ser considerados, principalmente pela interpretação que se dá às leis brasileiras. Na verdade, se os empresários e o governo concentrarem os esforços em transformarem a legislação em algo produtivo, teremos sucesso. Caso contrário, não existe lei no mundo que consiga nortear qualquer crescimento. De toda forma, não existe mais espaço para condições como as do passado e isso faz com que naturalmente o mercado empurre as necessidades eminentes ao setor.

CP – Hoje a concorrência internacional é muito acirrada. Estamos vendo o gigantismo da China e a eficiência dos portos chineses. Especialistas atribuem o sucesso do modelo de gestão portuária na China à descentralização das decisões e ao fortalecimento da regionalização da administração portuária, através dos governos locais. Exatamente o contrário do que prega a MP 595. Como a sua empresa vê essa mudança nas regras do jogo, quando ainda não tem nem um ano que a HTS está no Brasil? De que forma os empresários brasileiros precisam atuar para se proteger?

AM – Temos de entender claramente que cada país possui a sua cultura e raízes dentro de cada mercado, e no meu entender, o governo deve concentrar o foco em auditar os processos e garantir que a iniciativa privada faça o seu papel. Enquanto o governo continuar com o foco em “operar”, dificilmente conseguirá os resultados esperados. As coisas no Brasil precisam funcionar.

CP – O Governo Federal está investindo no Plano Nacional de Logística Integrada, o PNLI. Especialistas defendem a logística integrada como solução para os problemas enfrentados no transporte de cargas do país. O senhor concorda com essa tese? Quais os prós e contras da logística integrada?

AM – O mundo está globalizado e integrado e não podemos ir contra esta maré. Ttodavia, é importante ressaltar que as regras desta “integração” é que irão nortear o sucesso logístico. Não podemos mais atuar somente com interesses individuais e sim com interesses coletivos, todos devem e irão ter de se moldar para que o coletivo seja produtivo.

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